Singular VS Plural

(postagem grande, cheia de digressões e meio fervorosa em alguns aspectos)

Sim, vou falar disso. Singular e plural. É algo simples, mas muito mal interpretado por nós, falantes do português, essa língua tão cheia de flexões.

Se você está começando o estudo de japonês, talvez ainda não tenha notado esse detalhe curioso. Em japonês, não existe plural (caras de espanto). “Mas COMO?! Como pode uma língua não ter plural?!”

Antes de tudo, sempre que esse tipo de choque vier à sua cabeça (e, quando se estuda japonês, isso é mais frequente do que se imagina), lembre-se de que existe um país inteiro com mais de 120 milhões de habitantes que usam a língua diariamente para fazer de tudo, desde comprar sorvete até realizar cirurgias no cérebro. Tudo isso com uma língua que não tem plural.

Em segundo lugar, é comum achar que, só porque nossa língua tem certa característica, as outras devam ter. Singular e plural (um traço que chamamos de “Número”) não são características universais das línguas (sim, são bem comuns nas muitas que conhecemos, mas não em todas).

Se formos contar a quantidade de coisas que não temos em português e que parece ser essencial em outras línguas, teríamos um texto imenso só para isso. Falantes nativos de outras línguas, como algumas indígenas da Austrália ou o próprio Chinês, poderiam facilmente dizer para nós “Como vocês conseguem se comunicar com uma língua que não diferencia nós = ‘eu + você + outros’ de nós = ‘eu + outros, sem você’?” (acredite, ter essa diferença resolveria muitos problemas de comunicação das nossas vidas)

Enfim, estou divagando demais. A questão é: desconstrua o que você sabe do português e não queira aplicar o padrão dele a tudo. Não é assim que o mundo das línguas funciona.

Voltando ao caso dos Números. OK, temos singular e plural (algumas línguas têm o dual para “dois”, trial para “três”, paucal para “poucos” e ainda outros mais mirabolantes). O japonês não tem plural. Na verdade, ele sequer tem singular. Ele simplesmente não trata de Número como categoria gramatical. “MAS COMO ASSIM?!” (favor ler de novo tudo isso aí em cima, depois prosseguir^^)

Quando falamos “Eu dei um presente a ele”, imaginamos logo que é UM presente. Se fossem mais, diríamos “presentes”. Mas quando dizemos “O homem é um ser cruel”, pensamos em UM homem? Pensamos em “homens”? Eu prefiro pensar que pensamos na ideia de “homem”, independentemente de número, sem ser singular ou plural. Pensamos na ideia geral da palavra. Vamos a um exemplo mais abstrato: quando dizemos “Estou com sede”, essa sede é UMA sede? Está no singular, não é? Aliás, tem como contar sede?

Vamos agora observar essa frase em japonês:

はなを もらいました。

Ela poderia ser traduzida como “(eu) recebi flores”. Mas como saber se é “flor” ou “flores”? As pessoas geralmente explicam que, em cada frase do japonês, você deve descobrir se tal palavra está expressando singular ou plural. Isso é bobagem. Pense na frase e no contexto. Se for essencialmente importante saber se é uma única flor (一本の花) ou um buquê (花束), a pessoa vai falar. Se não, deixa o contexto levar a história adiante.

No começo é comum a gente querer se apegar aos falsos “sufixos de plural” que a língua tem. Estamos falando de ~たち e ~ら, reduplicações (repetir a palavra duas vezes, uma ao lado da outra, como em 人々、国々、山々, etc.) e alguns outros casos específicos (como 先生方). Desistam, eles não são de fato o nosso -s do plural. De fato, podem ajudar a expressar a ideia de quantidade, mas não é como no português onde somente há uma ideia genérica de “mais de um” (たち, por exemplo, implica um grupo a que o item está associado; se você fala いぬたち, não está falando simplesmente “cães”, mas algo como “cães entendidos como pertencentes a um determinado grupo”; é possível até usar たち para “pluralizar” nomes de pessoas, indicando algo como “fulano e as pessoas que, nesse contexto específico, estão associadas a ele”).

Cara, se você ainda está inconformado, desencana. Use a experiência da ausência do contraste singular-plural como uma forma de enriquecer sua forma de pensar. Evite fazer equivalentes do japonês com o português (ou outras línguas), porque isso mais atrapalha do que facilita (na verdade, passa a ser mais útil quando se está num nível bem mais avançado, mas no começo é bom evitar ao máximo). Abstraia seu bê-a-bá e tente sorver o japonês como uma tabula rasa, uma folha em branco. Desprenda-se, permita-se.

OBS1: Já ouvi dizerem (na minha frente!) que, por não ter plural, o japonês é uma língua primitiva e rudimentar. Aff, isso é muito eurocentrismo, etnocentrismo, preconceito. Japonês tem tantas outras coisas que faltam ao português, possui um vocabulário riquíssimo, permite nuances da fala e da escrita que precisariam de parágrafos de explicações a um leigo. Respeitemos a diversidade linguística. As línguas são belas porque são únicas!

OBS2: “Singular” se diz 単数(たんすう) e “plural” se diz 複数(ふくすう). “MAS VOCÊ ACABOU DE DIZER QUE NÃO TEM ISSO NO JAPONÊS!” Mas tem em outras línguas. Como um falante nativo de japonês explicaria o que é singular e plural, por exemplo, do inglês (que é tão estudado lá), aos demais, se essas palavras não existissem?

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