「ために」VS「ように」

Hoje vamos falar de uma diferença com nuances muito sutis (que novidade…), mas simples de entender. Trata-se do par ために e ように, ambos usados após verbos para indicar algo como “a fim de”, ou seja, o objetivo.

Vejamos alguns exemplos que ilustram os usos:

新しいパソコンを 買うために、アルバイトを しています。
(Estou trabalhando para comprar um computador novo)

ピアノが 弾けるように練習しています。
(Estou treinando para poder tocar piano)

Antes de falar das diferenças, vamos às semelhanças. Nos dois casos, as expressões ように e ために se traduzem bem como “para”, indicando basicamente que a ação realizada na segunda metade da frase tem como objetivo a primeira metade da frase.

Outra semelhança é a construção. Nos dois casos, antes de ように ou ために, temos sempre um verbo no 辞書形 (ou seja, 買う, する, 行く, 食べる), podendo também vir no 否定形 (ou seja, 買わない, しない, 行かない, 食べない).

Agora sim vamos às diferenças. O grande X da questão está no tipo de verbo que vem antes de ように e de ために. Quando falamos de ために, temos claramente um objetivo que será cumprido conscientemente, com um verbo de ação voluntária, pensada, ativa. No exemplo de 新しいパソコンを 買うために、アルバイトを しています, a pessoa que está trabalhando irá, ela mesma, conscientemente, de forma voluntária e espontânea, comprar o computador.

Quando usamos ように, não estamos exatamente pensando num objetivo que será conscientemente, ativamente realizado. Em vez de pensá-lo como “fazer X para fazer Y”, pense que o objetivo é “fazer X para criar uma circunstância favorável para que Y aconteça”. Os verbos não são conscientes, espontâneos, ativos. Eles indicam geralmente acontecimentos involuntários, ou não controláveis. No exemplo ピアノが 弾けるように練習しています, o treino é feito para criar uma circunstância favorável para que a pessoa passe a tocar piano bem. “Poder tocar piano” não é uma ação perfeitamente voluntária como é “comprar”. Você pode simplesmente sacar 3 mil reais do bolso e decidir “vou comprar esse computador agora”, mas não tem como você de repente decidir voluntariamente “agora eu posso tocar piano”. Não, mas você pode fazer outras coisas favoráveis para que essa mudança de estado aconteça dentro de você.

Exatamente por esse motivo, é muito comum que, antes de ように, haja verbos de estado ou de coisas que não tenhamos muito como controlar, tais como 分かる, なる, 治る ou できる. Isso inclui todos os verbos no 可能形 (como 見える, 聞こえる, のめる) e 受身 (como 取られる, 読まれる, 切られる).

Vejamos outros exemplos. Pense no que já dissemos sobre ように e ために enquanto analisa cada uma.

 病気が 治るために、一日中 寝ています
(Estou dormindo/deitado o dia inteiro para que a doença sare.)

みんなに 説明するために、パワーポイントの 発表を 作りました
(Fiz uma apresentação no power point para explicar para todos)

Na primeira delas, 病気が 治るために, a doença cura sozinha, é algo involuntário, portanto não pode ser ために, e sim ように. A pessoa fica deitada para criar a condição favorável para que a doença se cure. No segundo exemplo, みんなに 説明するために, a ação de explicar para todos é voluntária, consciente, então usamos ために.

Acho que isso ficou claro. Só mais um detalhe sobre isso: é possível que um verbo seja interpretado ora como voluntário, ora como involuntário. O contexto e a intenção da frase é que vão dizer como ele será interpretado. Tomemos como exemplo o verbo 忘れる. Ele pode ser entendido como voluntário em frases como なことを 忘れましょう (Vamos esquecer as coisas ruins), mas involuntário na frase 返事出すのを うっかり 忘れていた (Acabei esquecendo de dar uma resposta). Isso pode definir o uso de ように e ために. Veja nos exemplos abaixo, ambos usando o verbo 慣れる:

日本の 生活に 慣れるために、日本人の に 下宿します。
(Vou me hospedar na casa de um japonês para me acostumar com o tipo de vida do Japão)

日本の 生活に 慣れるように、日本人の に 下宿します。
(Vou me hospedar na casa de um japonês para me acostumar com o tipo de vida do Japão)

As nuances das duas frases são diferentes, apesar do sentido geral ser o mesmo (a tradução ficou igual também, hehe). Na primeira delas, a ação de “acostumar-se com a vida no Japão” é tida como voluntária, ou seja, a pessoa quer se acostumar com essa vida e está fazendo um esforço para isso. Na frase de baixo, com ように, o sentido de acostumar-se é passivo, involuntário, acontece de forma natural e não pensada. É como se a pessoa quisesse se hospedar na casa de um japonês e deixasse as coisas fluírem naturalmente, sem esforço… em algum momento ele vai acabar se acostumando. Notam a diferença?

Pois bem, após essa grande explicação mais detalhada, vamos a alguns fatos mais rápidos sobre esse par ように e ために:

  • O sujeito das duas frases unidas com ために é quase sempre o mesmo (alguns dizem que SEMPRE deve ser); com ように, os sujeitos podem ser o mesmo ou não;
  • Existem usos de ように e ために sem verbos, com substantivos antes, mas os significados são ligeiramente diferentes (principalmente com ように);
  • Existe 漢字 para cada um deles, mas eles quase nunca são usados; para ように, temos 様に, e o de ために é 為に (esse eu já vi com mais frequência); escreva-os sempre em ひらがな (não sou em quem diz, é o governo japonês).

Pois bem, o assunto em si não é difícil de entender. Na verdade, é mais fácil do que parece. O problema está em pensar nessas coisas enquanto falamos. Como não temos isso em português, nossa cabeça não está programada para pensar nesses detalhes no momento de falar. Enfim, se serve de consolo, alguns japoneses também erram isso (não é tão comum, mas acontece). Com o tempo, o uso fica mais natural e espontâneo.

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「自動詞」VS「他動詞」

Uma postagem muito útil, pois esse assunto às vezes confunde a cabeça das pessoas. Não acho que deveria, pois não é difícil, mas acontece, então vim dar minha contribuição a essa questão. Estou falando dos 自動詞 (じどうし) e 他動詞 (たどうし).

Colocando da maneira mais precisa e inequívoca que há, 自動詞 são verbos intransitivos e 他動詞 são verbos transitivos. Porém, como conheço a educação brasileira e o nível de interesse dos alunos nas aulas de português (eu sempre gostei muito), entendo que a explicação assim não ajude muito. Pois bem, vamos do começo.

Vou começar com o português, depois vamos para o japonês. Vejamos as frases abaixo:

Tanaka-san abriu a porta.
Tanaka-san fechou a janela.
Tanaka-san levantou a cadeira.
Tanaka-san derrubou o lápis.
Tanaka-san ferveu a água.
Tanaka-san apagou a luz.
Tanaka-san terminou a tarefa.
Tanaka-san começou a apresentação.

Os exemplos são bem simples para facilitar o entendimento. Vejamos quais são os verbos de cada uma dessas frases (pelo menos isso você precisa saber, né): abriu, fechou, levantou, derrubou, ferveu, apagou, terminou, começou.

Pensemos na pessoa que faz essas ações todas: nessa caso, Tanaka-san. Esse é o sujeito, é quem faz a ação. Em todos os verbos, Tanaka-san é quem despende energia para realizar as ações. Porém, as ações recaem, incorrem sobre algo. Tanaka-san abre, mas abre ALGO: a porta; fecha ALGO: a janela; levanta ALGO: a cadeira… Veja que as ações começam no Tanaka-san, partem dele, mas elas têm um objetivo, um alvo. Nos exemplos acima, são a porta, a janela, a cadeira, o lápis, a água, a luz, a tarefa, a apresentação. A isso chamamos objeto. Até aqui tudo certo?

Bom, existem frases em que alguém realiza uma ação, e essa ação recai sobre algo ou alguém, ou seja, usando os termos de antes, um sujeito realiza uma ação sobre um objeto (eu poderia incluir os nomes desses termos todos em japonês, sujeito, verbo, objeto, etc., mas não acho que seja necessário, né). O resumo desse tipo de frase está no esquema abaixo:

SUJEITO > VERBO > OBJETO
(às vezes abreviado como SVO)

Pense que a energia que o sujeito gasta para realizar a ação passa para o objeto, ela transita do sujeito para o objeto, logo temos um verbo transitivo (parece óbvio quando falamos assim).

No entanto, existem frases em que a ação do sujeito não incorre em nada, não recai sobre outra coisa. Ela fica no próprio sujeito, ela nem sai do seu corpo. Logo, não existe objeto. Veja as frases abaixo, dessa vez com a Satou-san:

Satou-san acordou.
Satou-san trabalhou.
Satou-san correu.
Satou-san suou.
Satou-san descansou.
Satou-san voltou.
Satou-san deitou.
Satou-san dormiu.

Vejamos, quais são os verbos: acordou, trabalhou, correu, suou, descansou, voltou, deitou, dormiu. Quem realiza essas ações, ou seja, quem é o sujeito? Satou-san. Veja que as ações todas não recaem sobre nada nem ninguém. Satou-san não corre ALGO, nem dorme ALGO. Ela simplesmente corre, dorme. A energia que Satou-san despende para realizar essas atividades não transita dela para outra coisa, logo os verbos são todos intransitivos. As ações todas têm por fim ela mesma, não outra coisa ou pessoa.

Até aqui, acho que estamos indo sem problemas. Pois bem, vejamos a frase abaixo.

(1) Eu derrubei o lápis.
(2) O lápis caiu.

Na primeira frase, temos claramente alguém que faz a ação (Eu) e o objeto alvo da ação (o lápis). Logo o verbo (derrubei) é transitivo. Na frase de baixo, o sujeito da ação (O lápis) não realiza a ação sobre nada nem ninguém. Ele não cai ALGO. Ele simplesmente cai. Logo o verbo (caiu) é intransitivo. Ótimo.

Porém, pense agora que colocamos alguém para realizar a ação de derrubar o lápis e filmamos. Imagine uma mesa, uma pessoa sentada junto a ela, o lápis próximo à beirada da mesa. Com essa cena começa a filmagem. A pessoa mexe o braço sem atenção, esbarra no lápis e ele rola um pouco até cair. A pessoa derrubou o lápis. É uma representação em vídeo da frase 1 acima.

Porém, se nós depois editarmos o vídeo e cortarmos a parte em que a pessoa esbarra no lápis, ficamos apenas com a imagem do lápis rolando e caindo. Poderíamos dizer que o filme é uma representação da frase 2 acima. Ou seja, em essência, os verbos derrubar e cair não são muito diferentes. A diferença está no papel do sujeito e do objeto e no ponto de vista. Sob o ponto de vista da pessoa, dizemos que ela derrubou o lápis; sob o ponto de vista do lápis, dizemos que ele caiu.

Tente fazer o seguinte: pegue uma frase com um verbo transitivo e um objeto. Olhe para o objeto e pense: o que esse “objeto” está fazendo? Provavelmente você chegue no verbo intransitivo equivalente.

Ficou confuso? Vamos ao exemplo do lápis novamente. Tomemos a frase com o verbo transitivo: Eu derrubei o lápis. Agora olhemos para o objeto: o lápis. Pergunte: se eu derrubei o lápis, o que é que ele está fazendo? Ora, está caindo. Logo, temos essa equivalência de derrubar-cair como um par transitivo-intransitivo.

Podemos fazer isso com outros exemplos e encontrar outros pares de verbos transitivos e intransitivos. Peguemos o exemplo lá de cima, do Tanaka-san.

Tanaka-san abriu a porta.

Esse “abriu” é transitivo, certo? Porque a energia do Tanaka-san transita para a porta, a ação recai sobre a porta, ela tem um alvo. Agora perguntemos: o que a porta fez? Bem, a porta abriu.

Epa, e agora? Se em “Tanaka-san abriu a porta” o abriu é transitivo, e em “A porta abriu” o abriu é intransitivo, então o par transitivo-intransitivo é abrir-abrir? Exato. Em português, a maioria dos verbos ocupa os dois papéis. Você simplesmente muda a frase mas o verbo pode ser usado tanto como transitivo quanto como intransitivo. O mesmo vale para fechar. Você pode fechar ALGO (uma porta, uma janela, um livro), ou seja, fazer a energia transitar do sujeito até o objeto, ou algo pode fechar, como uma porta pode fechar sozinha, ou um programa do Windows 10 (esse mal necessário) pode simplesmente fechar, sozinho. Ou seja, fechar pode ser usado tanto como transitivo quanto como intransitivo.

Justamente por isso, nós brasileiros não ligamos muito para isso de transitivo e intransitivo. Os verbos são quase sempre os mesmos, então esse caráter não fica muito consciente na nossa cabeça (o par cair-derrubar é um achado raro). Daí, quando olhamos que o verbo “abrir” em japonês pode ser あく ou あける, já arregalamos os olhos sem entender (algo como isso: O.o).

A verdade é que, em japonês, os pares de verbos intransitivos e transitivos são quase sempre diferentes, ou seja, o contrário do português. Quase sempre a versão transitiva do verbo será diferente da versão intransitiva. No caso de abrir, あく é a versão intransitiva (自動詞), e あける é a versão transitiva (他動詞). Não são simplesmente duas formas de dizer “abrir” que vão confundir nossa cabeça; cada um tem um significado próprio. A culpa é nossa de querer usar a mesma palavra para os dois.

Vamos a alguns exemplos em japonês agora. Começando com あく/あける.

[わたしは]ドアを あける。
Eu abro a porta.

ドアが あく。
A porta abre.

No primeiro caso, temos um “abrir” transitivo, ou seja, a ação de abrir incorre sobre algo, no caso, a porta. A energia transita do sujeito (eu) para o objeto (porta). Logo, o verbo é あける (transitivo, 他動詞). No segundo exemplo, temos um “abrir” intransitivo, ou seja, a ação de abrir não incorre sobre ninguém, ela acontece no próprio sujeito (ドア), a energia não transita para outra coisa. Logo, o verbo é あく (intransitivo, 自動詞).

Outros pares de verbos 自動詞 (abreviado como 自) e 他動詞 (abreviado como 他):

(自)きえる (apagar)→ ろうそくが きえた (A vela apagou)
(他)けす(apagar) → ろうそくを けした (Apaguei a vela)

(自)しまる(fechar)→ ドアが しまった(A porta fechou)
(他)しめる(fechar)→ ドアを しめた(Fechei a porta)

(自)うごく(mover)→ くるまが うごいた(O carro se moveu)
(他)うごかす(mover)→ くるまを うごかした(Eu movi o carro)

(自)おきる(acordar)→ ははが おきた(Mamãe acordou)
(他)おこす(acordar)→ ははを おこした(Acordei mamãe)

(自)わく(ferver)→ みずが わいた(A água ferveu)
(他)わかす(ferver)→ みずを わかした(Fervi a água)

Apesar de, em japonês, os pares de verbos 自動詞/他動詞 serem diferentes, eles em geral tem o começo parecido. O 漢字 para todos é sempre o mesmo. Pode-se entender como palavras irmãs, derivadas uma da outra (essa coisa do par cair-derrubar, por exemplo, ter os verbos completamente diferentes um do outro é coisa do português, mas não ocorre no japonês).

Algumas observações MUITO IMPORTANTES ainda devem ser colocadas:

  • A partícula que marca o objeto é を. Logo, não usamos を com verbos intransitivos (自動詞), pois eles não têm objeto.
  • A partícula que marca o sujeito é が. Porém, quando o sujeito também é tópico da frase (sei que esse assunto é confuso, vou fazer uma postagem sobre isso ainda), ele é marcado com は, e não existe a combinação がは, porque o は toma o lugar do が completamente… mas ele ainda tá lá, em teoria. O mesmo acontece com も, ele toma o lugar do が.
  • Não é necessário sempre dizer qual é o sujeito da frase. Muitas vezes ele é implícito (como nos exemplos finais acima). Isso não quer dizer que ele não exista. Ele apenas não foi escrito (possivelmente porque é muito óbvio ou porque já foi dito antes).
  • Existe um padrão de terminações para pares 自動詞/他動詞, como ARU/ERU ou U/ERU, mas não creio que seja útil decorar isso. Essa compreensão vai se tornando orgânica e espontânea com o tempo, é bem mais eficiente assim.
  • Existem verbos que se comportam ao mesmo tempo tanto como 自動詞 quanto como 他動詞 (ou seja, como a maioria dos verbos em português). No momento só consigo pensar em おわる (acabar terminar). Você pode dizer algo como しゅくだいを おわる (acabar o dever de casa) ou かいぎが おわった (a reunião acabou), ambos com o mesmo verbo.
  • Alguns verbos transitivos não possuem um par intransitivo, e o mesmo pode ocorrer ao contrário. Por exemplo, よむ (ler) é transitivo (他動詞), mas não tem um equivalente intransitivo (自動詞). Não faz nem sentido ter: quando você lê um livro, o que o livro está fazendo? (se você respondeu “está sendo lido, saiba que isso é voz passiva, outra coisa diferente… ok, vou fazer uma postagem sobre isso também).
  • O 漢字 inicial da palavra 自動詞 é 自 e significa “si próprio”, ou seja, ações que recaem sobre a própria pessoa que a fez. Já 他動詞 tem 他, que significa “outro, o outro”, ou seja, a ação incorre sobre outra pessoa. É comum em dicionários os verbos virem com 自 ou 他, como uma abreviação para 自動詞 e 他動詞.

Se você não entendeu o que é a imagem dessa postagem, lá de cima, saiba que ela tem tudo a ver com o assunto. Nela temos um さる (macaco) com o seu envelope de としだま (também chamado おとしだま, um dinheirinho que as crianças em geral ganham dos pais no início do ano). Porém, o dinheiro do envelope está caindo. Mas estão mesmo caindo (おちる), ou o さる derrubou (おとす)?

Se ainda ficou alguma dúvida, pergunte nos comentários, Ficarei feliz em ajudar. Se for algo pontual, resolvo nos comentários mesmo. Se for algo mais grave que eu tenha esquecido, atualizo a postagem. Espero que tenha de alguma forma ajudado nesse assunto!

【~にくい】VS【~づらい】

Desde cedo, no japonês, aprendemos a palavra むずかしい「難しい」, que significa “difícil”. A partir daí, podemos expressar tantas coisas que sempre quisemos dizer, como 「日本語が難しいです」、「漢字が難しいです」 ou 「助詞が難しいです」.

Bom, quando vamos tratar de ações que são difíceis de fazer (ou seja, quando usamos verbos), as coisas mudam um pouco de estrutura. Não é difícil dizer que “algo é difícil”; basta usar o むずかしい. Porém, dizer que “fazer algo é difícil” não é feito da mesma maneira (mas continua sendo fácil também).

Pois bem, “difícil de ler”, “difícil de escrever”, “difícil de falar”, “difícil de explicar”, etc., todos são ditos em japonês com uma terminação colocada no verbo. Aprendemos por padrão que essa terminação é ~にくい, ficando então assim:

Ler > よみます Difícil de ler > よみにくい
Escrever > かきます Difícil de escrever > かきにくい
Falar > はなします Difícil de falar > はなしにくい

Logo, uma frase como “Esse kanji é difícil de escrever” ficaria 「この漢字は書きにくいです。」.

Mas então, se o problema se resolve assim tão facilmente, por que estou tratando dele aqui num site que se propõe a tirar dúvidas entre coisas que podem parecer a mesma? Pois bem, existe uma outra versão de ~にくい: a terminação ~づらい.

Ela é construída da mesma maneira que com ~にくい:

よみづらい (difícil de ler)
かきづらい (difícil de escrever)
はなしづらい (difícil de falar)

E, assim como com ~づらい, possui a mesma tradução. E então, tem diferença?

CLARO que tem! E é delas que gosto de falar. O ponto principal da diferença é a subjetividade da frase. A terminação ~にくい é imparcial, objetiva, física, ela diz que algo é difícil de fazer porque é difícil e pronto. Pode ter algum tipo de exigência que esteja acima da capacidade humana e por isso seja difícil de fazer.

Já a terminação ~づらい indica que algo é difícil porque a pessoa que fala isso acha difícil, subjetivamente, é uma opinião, uma maneira pessoal de encarar a situação. Pode ser que nem seja de fato difícil de fazer a coisa, mas sim trabalhoso, árduo, 大変.

Quando você usa ~づらい, em geral, você quer expressar seu parecer sobre aquilo. É exatamente por isso que tem se tornado comum usar ~づらい para falar de coisas que você acha difícil, mas usar ~にくい para falar de coisas que outras pessoas acham difícil de fazer.

Para algumas pessoas, você pode usar tanto um quanto outro e não haverá diferença. De fato, para dizer “difícil de ver”, é preferível utilizar 「みづらい」, já que 「みにくい」 é um adjetivo que significa “feio”.

Para qualquer caso, é sempre possível usar uma expressão mais longa para exprimir a mesma coisa. Para “difícil de ler”, em vez de 「よみにくい/よみづらい」, é possível usar a construção neutra 「よむ ことが むずかしい」.

Última coisa: por se tratarem de terminações gramaticais, ~にくい e ~づらい são escritos sempre em ひらがな. Porém, eles possuem 漢字 (eu mesmo já os vi em alguns lugares):

~にくい > ~難い
~づらい > ~辛い

O próprio 漢字 já ajuda a ter um melhor entendimento de cada terminação. E aí, difícil de entender?

【ないで】VS【なくて】

Em uma língua tão diferente da nossa, dúvidas gramaticais são uma coisa constante. Se formos comparar o japonês com o nosso português, as maneiras de pensar em cada uma delas é bastante peculiar.

Uma das dúvidas gramaticais que parecem não fazer sentido para nós está no uso de ~ないで e ~なくて. Primeiramente, é importante saber que, após adjetivos e substantivos NÃO se pode usar ないで, apenas なくて. Vejamos a frase seguinte:

あの ビルは エレベーターが なくて 不便です。

Como estamos usando a negação após um substantivo (エレベーター), apenas なくて pode ser utilizado. Vejamos outro exemplo, agora com um adjetivo:

きのうの テストは 難しくなくて よかった。

A negativa de 難しい é feita com 難しくない. Porém, quando ligada a outra frase, ela assume a forma なくて, NUNCA ないで.

No caso dos verbos, tanto ないで quanto なくて podem ser utilizados na hora de juntar duas frases. A questão é sempre olhar para o tipo de frase utilizada.

Caso a primeira frase esteja indicando a causa (原因) da segunda, o verbo pode utilizar tanto ~ないで quanto ~なくて. Veja o exemplo:

〇 宿題を しないで 怒られた。
〇 宿題を しなくて 怒られた。

Para o caso de a primeira frase indicar uma circunstância, uma situação para a segunda, apenas ないで pode ser utilizado. Exemplos:

〇 宿題を しないで 学校に 行った。
✕ 宿題を しなくて 学校に 行った。

Por último, quando as duas frases indicarem contraste, comparação, novamente apenas ないで pode ser usado. Veja o exemplo:

〇 宿題を しないで ゲームばかり している。
✕ 宿題を しなくて ゲームばかり している。

Ou seja, no caso de verbos, sempre é possível usar ないで, mas apenas no caso de causa, motivo (原因) é possível usar なくて também. Vejamos um esquema abaixo que resume o assunto.

ADJETIVOS E SUBSTANTIVOS
Apenas なくて.

VERBOS
Apenas ないで. Em frases de “causa”, pode-se também usar なくて.

「ですね」VS「でしょう」

Resolvi ser mais ousado e tratar aqui de algo muito delicado, sutil, um pouco controverso e complexo. Vamos a dois exemplos:

あした パーティーに 行きますね。

あした パーティーに 行くでしょう。

Em português, poderíamos traduzir ambas as frases como “Amanhã você vai à festa, certo?”, mas o problema é que não estudamos japonês só para fazermos traduções. As duas frases possuem nuances diferentes, e essas nuances são bastante importantes em frases assim.

Bom, inicialmente devemos deixar claro que tanto 「ですね」 (ou só 「ね」) quanto 「でしょう」têm muitos outros significados não necessariamente tratados aqui. Vamos nos focar no ponto em que os dois passam a se confundir. Esse ponto, no caso, surge quando usamos as duas expressões no fim de uma frase como forma de ter certeza da opinião do ouvinte (“não é?”, “né?”, “certo?”).

O uso de 「ですね」 implica que você acha algo sobre a opinião do ouvinte, mas “quer uma confirmação”. Na frase 「あした パーティーに 行きますね。」, o falante já imagina que a pessoa vai à festa, mas quer apenas confirmar isso. Esse 「ね」 aí no final está muito mais para chamar atenção da pessoa do que para demandar uma confirmação. Seu grau de “dúvida” é muito pequeno.

Por outro lado, 「でしょう」 mostra uma dúvida bem maior, mas ainda assim revela a opinião do falante. Na frase 「あした パーティーに 行くでしょう。」, o falante não sabe se o ouvinte vai, mas acha que sim, então pede a confirmação com a frase.

Vamos a outros dois exemplos:

これ、おいしいですね。

これ、おいしいでしょう。

Na primeira frase, o falante acha que a comida é gostosa e acredita que o ouvinte também acha, então ele usa 「ですね」, não muito para “tirar a dúvida”, pois ele suspeita muito que o ouvinte irá concordar, mas muito mais para interagir ou compartilhar a opinião. Quando falamos “Nossa! Isso é muito bom, né?”, esse nosso “né” não está realmente pedindo a opinião da pessoa, mas a está convidando para partilhar sua opinião (que o ouvinte já suspeita que seja a mesma que a sua). Note que para essa frase não é estritamente necessário que haja uma resposta de confirmação do ouvinte (mas seria educado responder).

Já na segunda frase, o falante acha a comida gostosa, mas não sabe a opinião do ouvinte, mas acha que ele gosta também, então ele pede a opinião. Aqui a dúvida é maior e pede uma resposta, abre possibilidade para um diálogo sobre o assunto. Enfim, vamos a um exemplo mais derradeiro:

いい天気ですね。

いい天気でしょう。

A primeira é muito mais um “puxador de conversa”, enquanto que a segunda está realmente aberta a discussões sobre o tempo.

É bom saber também que tem gente viciada em 「ね」 tanto no Brasil quanto no Japão, então essas pessoas podem colocar ね em tudo e não querer necessariamente dar todas essas nuances miúdas que abordei aqui. Da mesma forma, algumas pessoas usam um pelo outro meio que indiferentemente. O contexto sempre ajuda muito, nunca esqueça disso!

Enfatizo novamente aqui que existem outras funções, outros significados para essas duas expressões. Aqui tratei de um aspecto específico que pode trazer confusão, mas essas explicações estão longe de abordar todos os usos de 「ですね」e principalmente 「でしょう」. Como os outros usos não trazem muita confusão entre essas duas “palavras”, não os incluí aqui. Creio que esteja tudo esclarecido, でしょう?

「に」VS「で」

Vamos a outra dúvida comum aos estudantes de japonês. Qual partícula devo usar para dizer “em algum lugar”? Bom, depende! Pode ser 「に」 ou 「で」, depende do que está acontecendo!

Na verdade essa questão é mais simples do que imaginamos. Os japoneses veem diferença entre “lugar em que algo existe“/”lugar alvo da ação” e “lugar onde se faz uma ação“. Só porque em português não fazemos diferença, isso não quer dizer que eles também não fazem.

Pois bem, quando o lugar descreve “lugar de existência” ou o “lugar alvo“, usamos 「に」. Alguns exemplos:

部屋に います。(Está no quarto)

に ぺんが あります。(Tem uma caneta no chão)

ベッド 寝る。(Deitar na cama)

O lugar em questão é o destino final da ação, não é apenas o lugar onde a pessoa está fazendo algo.

joshi_ni

Por outro lado, se uma ação ocorre em determinado lugar, esse tal lugar é marcado com 「で」.

部屋で 寝る。(Dormir no quarto)

は ブラジルで 働いています。(Estou trabalhando no Brasil)

O lugar marcado com で é meramente um detalhe a mais, uma circunstância da ação que está sendo explicada (no caso, o lugar). Ou seja, “estou fazendo a ação… aliás, eu estou fazendo isso nesse lugar aqui, viu.”

joshi_de

Tenhamos cuidado com uma coisa: alguns verbos pedem essa ou aquela partícula especificamente, por vezes de maneira irregular.  Bom, nesse caso não tem jeito, temos que aprender na marra o conjunto verbo + partícula. É o caso de 住む, que sempre pede a partícula 「に」(o que faz sentido, pois se você mora em tal lugar, você existe nele; ou podemos pensar que morar tem um alvo, no caso, o lugar onde se mora). Enfim, vamos a um tira-teima que pode ajudar muitos a tirar essa dúvida para sempre. Na frase “Eu plantei uma flor no jardim”, que partícula eu deveria usar? Qual das frases abaixo está certa?

 を 植えました

 を 植えました

Bom, depende do que você quer dizer. Na primeira, com a partícula 「」, a flor foi plantada em alguma porção de terra do próprio jardim, passando a existir ali. Se eu disser「」, eu fiz a ação de plantar no jardim, mas posso ter plantado a flor em um vaso e depois levado para outro lugar. Leia novamente as duas frases e sinta essa bela diferença de nuances que só o japonês pode dar!