「ために」VS「ように」

Hoje vamos falar de uma diferença com nuances muito sutis (que novidade…), mas simples de entender. Trata-se do par ために e ように, ambos usados após verbos para indicar algo como “a fim de”, ou seja, o objetivo.

Vejamos alguns exemplos que ilustram os usos:

新しいパソコンを 買うために、アルバイトを しています。
(Estou trabalhando para comprar um computador novo)

ピアノが 弾けるように練習しています。
(Estou treinando para poder tocar piano)

Antes de falar das diferenças, vamos às semelhanças. Nos dois casos, as expressões ように e ために se traduzem bem como “para”, indicando basicamente que a ação realizada na segunda metade da frase tem como objetivo a primeira metade da frase.

Outra semelhança é a construção. Nos dois casos, antes de ように ou ために, temos sempre um verbo no 辞書形 (ou seja, 買う, する, 行く, 食べる), podendo também vir no 否定形 (ou seja, 買わない, しない, 行かない, 食べない).

Agora sim vamos às diferenças. O grande X da questão está no tipo de verbo que vem antes de ように e de ために. Quando falamos de ために, temos claramente um objetivo que será cumprido conscientemente, com um verbo de ação voluntária, pensada, ativa. No exemplo de 新しいパソコンを 買うために、アルバイトを しています, a pessoa que está trabalhando irá, ela mesma, conscientemente, de forma voluntária e espontânea, comprar o computador.

Quando usamos ように, não estamos exatamente pensando num objetivo que será conscientemente, ativamente realizado. Em vez de pensá-lo como “fazer X para fazer Y”, pense que o objetivo é “fazer X para criar uma circunstância favorável para que Y aconteça”. Os verbos não são conscientes, espontâneos, ativos. Eles indicam geralmente acontecimentos involuntários, ou não controláveis. No exemplo ピアノが 弾けるように練習しています, o treino é feito para criar uma circunstância favorável para que a pessoa passe a tocar piano bem. “Poder tocar piano” não é uma ação perfeitamente voluntária como é “comprar”. Você pode simplesmente sacar 3 mil reais do bolso e decidir “vou comprar esse computador agora”, mas não tem como você de repente decidir voluntariamente “agora eu posso tocar piano”. Não, mas você pode fazer outras coisas favoráveis para que essa mudança de estado aconteça dentro de você.

Exatamente por esse motivo, é muito comum que, antes de ように, haja verbos de estado ou de coisas que não tenhamos muito como controlar, tais como 分かる, なる, 治る ou できる. Isso inclui todos os verbos no 可能形 (como 見える, 聞こえる, のめる) e 受身 (como 取られる, 読まれる, 切られる).

Vejamos outros exemplos. Pense no que já dissemos sobre ように e ために enquanto analisa cada uma.

 病気が 治るために、一日中 寝ています
(Estou dormindo/deitado o dia inteiro para que a doença sare.)

みんなに 説明するために、パワーポイントの 発表を 作りました
(Fiz uma apresentação no power point para explicar para todos)

Na primeira delas, 病気が 治るために, a doença cura sozinha, é algo involuntário, portanto não pode ser ために, e sim ように. A pessoa fica deitada para criar a condição favorável para que a doença se cure. No segundo exemplo, みんなに 説明するために, a ação de explicar para todos é voluntária, consciente, então usamos ために.

Acho que isso ficou claro. Só mais um detalhe sobre isso: é possível que um verbo seja interpretado ora como voluntário, ora como involuntário. O contexto e a intenção da frase é que vão dizer como ele será interpretado. Tomemos como exemplo o verbo 忘れる. Ele pode ser entendido como voluntário em frases como なことを 忘れましょう (Vamos esquecer as coisas ruins), mas involuntário na frase 返事出すのを うっかり 忘れていた (Acabei esquecendo de dar uma resposta). Isso pode definir o uso de ように e ために. Veja nos exemplos abaixo, ambos usando o verbo 慣れる:

日本の 生活に 慣れるために、日本人の に 下宿します。
(Vou me hospedar na casa de um japonês para me acostumar com o tipo de vida do Japão)

日本の 生活に 慣れるように、日本人の に 下宿します。
(Vou me hospedar na casa de um japonês para me acostumar com o tipo de vida do Japão)

As nuances das duas frases são diferentes, apesar do sentido geral ser o mesmo (a tradução ficou igual também, hehe). Na primeira delas, a ação de “acostumar-se com a vida no Japão” é tida como voluntária, ou seja, a pessoa quer se acostumar com essa vida e está fazendo um esforço para isso. Na frase de baixo, com ように, o sentido de acostumar-se é passivo, involuntário, acontece de forma natural e não pensada. É como se a pessoa quisesse se hospedar na casa de um japonês e deixasse as coisas fluírem naturalmente, sem esforço… em algum momento ele vai acabar se acostumando. Notam a diferença?

Pois bem, após essa grande explicação mais detalhada, vamos a alguns fatos mais rápidos sobre esse par ように e ために:

  • O sujeito das duas frases unidas com ために é quase sempre o mesmo (alguns dizem que SEMPRE deve ser); com ように, os sujeitos podem ser o mesmo ou não;
  • Existem usos de ように e ために sem verbos, com substantivos antes, mas os significados são ligeiramente diferentes (principalmente com ように);
  • Existe 漢字 para cada um deles, mas eles quase nunca são usados; para ように, temos 様に, e o de ために é 為に (esse eu já vi com mais frequência); escreva-os sempre em ひらがな (não sou em quem diz, é o governo japonês).

Pois bem, o assunto em si não é difícil de entender. Na verdade, é mais fácil do que parece. O problema está em pensar nessas coisas enquanto falamos. Como não temos isso em português, nossa cabeça não está programada para pensar nesses detalhes no momento de falar. Enfim, se serve de consolo, alguns japoneses também erram isso (não é tão comum, mas acontece). Com o tempo, o uso fica mais natural e espontâneo.

「自動詞」VS「他動詞」

Uma postagem muito útil, pois esse assunto às vezes confunde a cabeça das pessoas. Não acho que deveria, pois não é difícil, mas acontece, então vim dar minha contribuição a essa questão. Estou falando dos 自動詞 (じどうし) e 他動詞 (たどうし).

Colocando da maneira mais precisa e inequívoca que há, 自動詞 são verbos intransitivos e 他動詞 são verbos transitivos. Porém, como conheço a educação brasileira e o nível de interesse dos alunos nas aulas de português (eu sempre gostei muito), entendo que a explicação assim não ajude muito. Pois bem, vamos do começo.

Vou começar com o português, depois vamos para o japonês. Vejamos as frases abaixo:

Tanaka-san abriu a porta.
Tanaka-san fechou a janela.
Tanaka-san levantou a cadeira.
Tanaka-san derrubou o lápis.
Tanaka-san ferveu a água.
Tanaka-san apagou a luz.
Tanaka-san terminou a tarefa.
Tanaka-san começou a apresentação.

Os exemplos são bem simples para facilitar o entendimento. Vejamos quais são os verbos de cada uma dessas frases (pelo menos isso você precisa saber, né): abriu, fechou, levantou, derrubou, ferveu, apagou, terminou, começou.

Pensemos na pessoa que faz essas ações todas: nessa caso, Tanaka-san. Esse é o sujeito, é quem faz a ação. Em todos os verbos, Tanaka-san é quem despende energia para realizar as ações. Porém, as ações recaem, incorrem sobre algo. Tanaka-san abre, mas abre ALGO: a porta; fecha ALGO: a janela; levanta ALGO: a cadeira… Veja que as ações começam no Tanaka-san, partem dele, mas elas têm um objetivo, um alvo. Nos exemplos acima, são a porta, a janela, a cadeira, o lápis, a água, a luz, a tarefa, a apresentação. A isso chamamos objeto. Até aqui tudo certo?

Bom, existem frases em que alguém realiza uma ação, e essa ação recai sobre algo ou alguém, ou seja, usando os termos de antes, um sujeito realiza uma ação sobre um objeto (eu poderia incluir os nomes desses termos todos em japonês, sujeito, verbo, objeto, etc., mas não acho que seja necessário, né). O resumo desse tipo de frase está no esquema abaixo:

SUJEITO > VERBO > OBJETO
(às vezes abreviado como SVO)

Pense que a energia que o sujeito gasta para realizar a ação passa para o objeto, ela transita do sujeito para o objeto, logo temos um verbo transitivo (parece óbvio quando falamos assim).

No entanto, existem frases em que a ação do sujeito não incorre em nada, não recai sobre outra coisa. Ela fica no próprio sujeito, ela nem sai do seu corpo. Logo, não existe objeto. Veja as frases abaixo, dessa vez com a Satou-san:

Satou-san acordou.
Satou-san trabalhou.
Satou-san correu.
Satou-san suou.
Satou-san descansou.
Satou-san voltou.
Satou-san deitou.
Satou-san dormiu.

Vejamos, quais são os verbos: acordou, trabalhou, correu, suou, descansou, voltou, deitou, dormiu. Quem realiza essas ações, ou seja, quem é o sujeito? Satou-san. Veja que as ações todas não recaem sobre nada nem ninguém. Satou-san não corre ALGO, nem dorme ALGO. Ela simplesmente corre, dorme. A energia que Satou-san despende para realizar essas atividades não transita dela para outra coisa, logo os verbos são todos intransitivos. As ações todas têm por fim ela mesma, não outra coisa ou pessoa.

Até aqui, acho que estamos indo sem problemas. Pois bem, vejamos a frase abaixo.

(1) Eu derrubei o lápis.
(2) O lápis caiu.

Na primeira frase, temos claramente alguém que faz a ação (Eu) e o objeto alvo da ação (o lápis). Logo o verbo (derrubei) é transitivo. Na frase de baixo, o sujeito da ação (O lápis) não realiza a ação sobre nada nem ninguém. Ele não cai ALGO. Ele simplesmente cai. Logo o verbo (caiu) é intransitivo. Ótimo.

Porém, pense agora que colocamos alguém para realizar a ação de derrubar o lápis e filmamos. Imagine uma mesa, uma pessoa sentada junto a ela, o lápis próximo à beirada da mesa. Com essa cena começa a filmagem. A pessoa mexe o braço sem atenção, esbarra no lápis e ele rola um pouco até cair. A pessoa derrubou o lápis. É uma representação em vídeo da frase 1 acima.

Porém, se nós depois editarmos o vídeo e cortarmos a parte em que a pessoa esbarra no lápis, ficamos apenas com a imagem do lápis rolando e caindo. Poderíamos dizer que o filme é uma representação da frase 2 acima. Ou seja, em essência, os verbos derrubar e cair não são muito diferentes. A diferença está no papel do sujeito e do objeto e no ponto de vista. Sob o ponto de vista da pessoa, dizemos que ela derrubou o lápis; sob o ponto de vista do lápis, dizemos que ele caiu.

Tente fazer o seguinte: pegue uma frase com um verbo transitivo e um objeto. Olhe para o objeto e pense: o que esse “objeto” está fazendo? Provavelmente você chegue no verbo intransitivo equivalente.

Ficou confuso? Vamos ao exemplo do lápis novamente. Tomemos a frase com o verbo transitivo: Eu derrubei o lápis. Agora olhemos para o objeto: o lápis. Pergunte: se eu derrubei o lápis, o que é que ele está fazendo? Ora, está caindo. Logo, temos essa equivalência de derrubar-cair como um par transitivo-intransitivo.

Podemos fazer isso com outros exemplos e encontrar outros pares de verbos transitivos e intransitivos. Peguemos o exemplo lá de cima, do Tanaka-san.

Tanaka-san abriu a porta.

Esse “abriu” é transitivo, certo? Porque a energia do Tanaka-san transita para a porta, a ação recai sobre a porta, ela tem um alvo. Agora perguntemos: o que a porta fez? Bem, a porta abriu.

Epa, e agora? Se em “Tanaka-san abriu a porta” o abriu é transitivo, e em “A porta abriu” o abriu é intransitivo, então o par transitivo-intransitivo é abrir-abrir? Exato. Em português, a maioria dos verbos ocupa os dois papéis. Você simplesmente muda a frase mas o verbo pode ser usado tanto como transitivo quanto como intransitivo. O mesmo vale para fechar. Você pode fechar ALGO (uma porta, uma janela, um livro), ou seja, fazer a energia transitar do sujeito até o objeto, ou algo pode fechar, como uma porta pode fechar sozinha, ou um programa do Windows 10 (esse mal necessário) pode simplesmente fechar, sozinho. Ou seja, fechar pode ser usado tanto como transitivo quanto como intransitivo.

Justamente por isso, nós brasileiros não ligamos muito para isso de transitivo e intransitivo. Os verbos são quase sempre os mesmos, então esse caráter não fica muito consciente na nossa cabeça (o par cair-derrubar é um achado raro). Daí, quando olhamos que o verbo “abrir” em japonês pode ser あく ou あける, já arregalamos os olhos sem entender (algo como isso: O.o).

A verdade é que, em japonês, os pares de verbos intransitivos e transitivos são quase sempre diferentes, ou seja, o contrário do português. Quase sempre a versão transitiva do verbo será diferente da versão intransitiva. No caso de abrir, あく é a versão intransitiva (自動詞), e あける é a versão transitiva (他動詞). Não são simplesmente duas formas de dizer “abrir” que vão confundir nossa cabeça; cada um tem um significado próprio. A culpa é nossa de querer usar a mesma palavra para os dois.

Vamos a alguns exemplos em japonês agora. Começando com あく/あける.

[わたしは]ドアを あける。
Eu abro a porta.

ドアが あく。
A porta abre.

No primeiro caso, temos um “abrir” transitivo, ou seja, a ação de abrir incorre sobre algo, no caso, a porta. A energia transita do sujeito (eu) para o objeto (porta). Logo, o verbo é あける (transitivo, 他動詞). No segundo exemplo, temos um “abrir” intransitivo, ou seja, a ação de abrir não incorre sobre ninguém, ela acontece no próprio sujeito (ドア), a energia não transita para outra coisa. Logo, o verbo é あく (intransitivo, 自動詞).

Outros pares de verbos 自動詞 (abreviado como 自) e 他動詞 (abreviado como 他):

(自)きえる (apagar)→ ろうそくが きえた (A vela apagou)
(他)けす(apagar) → ろうそくを けした (Apaguei a vela)

(自)しまる(fechar)→ ドアが しまった(A porta fechou)
(他)しめる(fechar)→ ドアを しめた(Fechei a porta)

(自)うごく(mover)→ くるまが うごいた(O carro se moveu)
(他)うごかす(mover)→ くるまを うごかした(Eu movi o carro)

(自)おきる(acordar)→ ははが おきた(Mamãe acordou)
(他)おこす(acordar)→ ははを おこした(Acordei mamãe)

(自)わく(ferver)→ みずが わいた(A água ferveu)
(他)わかす(ferver)→ みずを わかした(Fervi a água)

Apesar de, em japonês, os pares de verbos 自動詞/他動詞 serem diferentes, eles em geral tem o começo parecido. O 漢字 para todos é sempre o mesmo. Pode-se entender como palavras irmãs, derivadas uma da outra (essa coisa do par cair-derrubar, por exemplo, ter os verbos completamente diferentes um do outro é coisa do português, mas não ocorre no japonês).

Algumas observações MUITO IMPORTANTES ainda devem ser colocadas:

  • A partícula que marca o objeto é を. Logo, não usamos を com verbos intransitivos (自動詞), pois eles não têm objeto.
  • A partícula que marca o sujeito é が. Porém, quando o sujeito também é tópico da frase (sei que esse assunto é confuso, vou fazer uma postagem sobre isso ainda), ele é marcado com は, e não existe a combinação がは, porque o は toma o lugar do が completamente… mas ele ainda tá lá, em teoria. O mesmo acontece com も, ele toma o lugar do が.
  • Não é necessário sempre dizer qual é o sujeito da frase. Muitas vezes ele é implícito (como nos exemplos finais acima). Isso não quer dizer que ele não exista. Ele apenas não foi escrito (possivelmente porque é muito óbvio ou porque já foi dito antes).
  • Existe um padrão de terminações para pares 自動詞/他動詞, como ARU/ERU ou U/ERU, mas não creio que seja útil decorar isso. Essa compreensão vai se tornando orgânica e espontânea com o tempo, é bem mais eficiente assim.
  • Existem verbos que se comportam ao mesmo tempo tanto como 自動詞 quanto como 他動詞 (ou seja, como a maioria dos verbos em português). No momento só consigo pensar em おわる (acabar terminar). Você pode dizer algo como しゅくだいを おわる (acabar o dever de casa) ou かいぎが おわった (a reunião acabou), ambos com o mesmo verbo.
  • Alguns verbos transitivos não possuem um par intransitivo, e o mesmo pode ocorrer ao contrário. Por exemplo, よむ (ler) é transitivo (他動詞), mas não tem um equivalente intransitivo (自動詞). Não faz nem sentido ter: quando você lê um livro, o que o livro está fazendo? (se você respondeu “está sendo lido, saiba que isso é voz passiva, outra coisa diferente… ok, vou fazer uma postagem sobre isso também).
  • O 漢字 inicial da palavra 自動詞 é 自 e significa “si próprio”, ou seja, ações que recaem sobre a própria pessoa que a fez. Já 他動詞 tem 他, que significa “outro, o outro”, ou seja, a ação incorre sobre outra pessoa. É comum em dicionários os verbos virem com 自 ou 他, como uma abreviação para 自動詞 e 他動詞.

Se você não entendeu o que é a imagem dessa postagem, lá de cima, saiba que ela tem tudo a ver com o assunto. Nela temos um さる (macaco) com o seu envelope de としだま (também chamado おとしだま, um dinheirinho que as crianças em geral ganham dos pais no início do ano). Porém, o dinheiro do envelope está caindo. Mas estão mesmo caindo (おちる), ou o さる derrubou (おとす)?

Se ainda ficou alguma dúvida, pergunte nos comentários, Ficarei feliz em ajudar. Se for algo pontual, resolvo nos comentários mesmo. Se for algo mais grave que eu tenha esquecido, atualizo a postagem. Espero que tenha de alguma forma ajudado nesse assunto!

「大事」VS「大切」VS「重要」VS「重大」

Essa postagem foi um pedido do leitor Paulo (vocês podem sugerir postagens nos comentários, viu!). Trata-se da diferença entre as palavras だいじ「大事」, たいせつ「大切」, じゅうよう「重要」 e じゅうだい「重大」. Todas elas podem ser traduzidas por “importante. As nuances, porém, são diferentes, em algumas um pouco mais, em outras quase nada.

Vou tentar começar pelo mais fácil de entender. A palavra 重大 significa “importante, grave, sério” e possui uma leve ideia de impacto à sociedade. Em geral, não possui uma impressão assim tão positiva. Alguns exemplos são “incidente importante/grave” (重大事件), “violação severa” (重大違反) e “anúncio importante”(重大発表).

O próximo é 重要, também “importante”, mas de uma maneira bem mais objetiva e segundo valores comuns a todos. Ou seja, é um importante do ponto de vista do senso comum, não segundo critérios pessoais. Essa palavra é de uso mais formal, vindo muito mais frequente em texto do que na fala. Além disso, é muito mais usada para falar de ideias, eventos, pensamentos, e não muito de coisas concretas, objetos. Alguns exemplos são “pessoa de referência importante” (重要参考人) e “propriedade cultural importante” (重要文化財).

Já 大切 possui um ponto de vista sentimental, e não objetivo como os anteriores. Se algo é importante com 大切, então ele tem um valor pessoal, algo que você queira cuidar, como em “pessoa importante” (大切な人) ou “lembrança importante” (大切な思い出).

O último, 大事, talvez cause um pouco de confusão. Ele se parece muito com 重要, pois é um “importante” mais objetivo e racional. Porém ele possui uma nuance menos severa, menos formal, mais presente na linguagem falada. Além disso, a importância de 大事 é menos geral que 重要. Geralmente, quando algo é 重要, ela é importante para todos em geral. Porém, é possível que alguém ache algo 大事 e outra pessoa não ache. Existe algo de pessoal no 大事, mas ainda objetivo.

Algumas observações importantes devem ser feitas aqui:

  • Todas as quatro palavras podem ser usadas como adjetivos-na, ou seja, 大事な、大切な、重要な、重大な.
  • Algumas expressões feitas usam essas palavras, como お大事に (dito a alguém que está doente, é algo como “fique bem, se cuide”).
  • Não confundir os termos acima com ひつよう「必要」(necessário) , きちょう「貴重」(valioso, precioso) e えらい「偉い」(usado apenas para pessoas importantes, no sentido de serem autoridades, hierarquicamente superiores ou algo do tipo, como diretores, presidentes, chefes, etc.).
  • Em muitos, muitos contextos, muitas dessas palavras podem ser usadas umas pelas outras. Para um iniciante, é mais seguro e simples considerá-las como sinônimos.
  • Existem muitas palavras que significam “___ importante”, como 要人 (pessoa importante) e 重点 (ponto importante). Vendo pelo 漢字, lembre-se de que 重 significa “pesado”, ou seja, é importante porque tem peso; já 要 significa “precisar, necessitar”, portanto é importante porque é necessário.
  • Existem as expressões verbais 大事にする e 大切にする, ambas significam algo como “cuidar, tratar bem”; porém, 大事 traz a nuance mais objetiva e racional, enquanto que 大切 se relaciona mais com o pessoal, sentimental.
  • Se você fosse marcar um documento com um carimbo de “importante”, esse carimbo teria um 重要 em vermelho.

Sei que as nuances são sutis. Eu não espero que só de ler essas explicações, tudo fique perfeitamente claro e todos saiam usando essas palavras com uma proficiência oriental. Isso ajuda, claro, mas, acredite, com o tempo e com o uso, você começa a sentir o momento certo de cada palavra, sentir a nuance muito mais do que entendê-la. Na verdade, isso acontece com tudo na língua depois que passamos um bom tempo com ela.

【かする】「課する」「科する」

Gente, é sério, eu nunca pensei que iria me deparar com tanta sutileza nesse blog. Todos os dias eu encontro alguma coisa (ou mais de uma, na maioria das vezes) que caberia aqui, alguma semelhança que gera dúvidas, coisas do tipo. Então eu acabo precisando filtrar um pouco e escolher o que postar, se não não dou conta.

O mundo do 違い é assustador! Trouxe hoje mais uma diferença extremamente sutil e desnecessária interessante. São os verbos 課する e 科する, ambos lidos como かする, ou seja, ambos são verbos do Grupo III, entendidos como か+する.

Os dois verbos significam “impor”, às vezes “infligir”. Porém eles têm nuances diferentes. A versão 課する é utilizada para impor deveres de casa (宿題を課する), taxas (税金を課する), normas (ノルマを課する), responsabilidade (責任を課する). Ou seja, ninguém fez nada de errado para que essas coisas fossem impostas.

Por outro lado, 科する é uma imposição feita porque alguém fez algo de errado. É uma penalidade. Usa-se com impor uma multa (罰金を科する), sanções (制裁を科する), pena por trabalho forçado (懲役を科する).

É ainda curioso que, na maioria das vezes, o IME (simplificadamente, IME é o “teclado japonês”) já sabe qual deve ser usado. Se você digitar しゅくだいをかする, ele já vai converter (em geral) para 課する. O mesmo vale para os outros casos (todos os que eu digitei aqui foram automaticamente convertidos com a versão correta).

Algumas observações finais:

  • Ambos podem ser escritos apenas como 課す e 科す (lidos かす). O significado não muda.
  • Não os confunda com 化する/化す (lido かする/かす), que significa “transformar”, como em 地震は町を廃墟と化した (O terremoto transformou a cidade em ruínas).

【じょうぎ】「定木/定規」VS【ものさし】「物差し」

Vamos para mais uma postagem extremamente minuciosa. Temos em japonês ao menos três palavras para dizer “régua” (pois é, até nisso). Duas delas são 同音異義語, ou seja, possuem a mesma pronúncia vinda de leituras 音読み, que são 定木 e 定規, ambos lidos じょうぎ. A terceira opção é ものさし, que pode ser escrito com 漢字 como 物差し também.

A diferença é sutil, mas objetiva. A diferença entre 定木 e 定規 é que, na primeira, não temos as linhas usadas para medir; ela serve apenas como um apoio para traçar retas, desenhar. Já 定規 possui as linhas e é o que mais se aproxima da nossa régua ocidental. Pode vir em diversos formatos, triângulo, círculo, etc.

Mas o 物差し é uma coisa um pouco mais específica para os japoneses. É uma régua sempre retangular e com linhas de medidas, mas não existe aquele espacinho entre a marca 0 (zero) e o começo da régua. Ou seja, ela começa já da extremidade da régua, direto. A imagem abaixo mostra muito bem a diferença entre as duas:

Imagem relacionada

Resumindo:

  • 定木: régua para traçar retas; não tem marcação de centímetros (ou outra unidade);
  • 定規: como o 定木, mas com marcações de centímetros; pode vir em outros formatos;
  • 物差し: régua que não tem o espacinho entre a extremidade e a marca de 0 (zero).

Além disso, 物差し é feita originalmente de um bambu (como na foto principal lá de cima) resistente à mudança de temperatura e umidade, o que evita erros de medida em diferentes condições. Atualmente o aço inoxidável também é uma opção.

É comum também que, em provas de matemática do Japão, nas primeiras séries, você precise levar um 定木 para traçar retas, mas não possa levar um 定規 porque senão você pode usar para calcular as medidas. Veja como a sutileza do 漢字 pode ajudar muito!

【いし】「石」「医師」「意思」「意志」

Mais uma diferença de アクセント. Trago quatro palavras juntas, ou seja, não tem como cada uma ter um アクセント diferente. Algumas vão se repetir. Mas tudo bem, japonês é isso mesmo.

As quatro palavras são 石 (pedra), 医師 (médico), 意思 (propósito, intenção) e 意志 (vontade, determinação), todos lidos いし.

Dessas quatro, as três últimas palavras têm o mesmo アクセント, enquanto que o de 石 é diferente das outras. Aqui estão eles:

石【い↗し↘】

医師、意思、意志【い↘し】

Dicas para lembrar: 石 é o único que se escreve com um 漢字 apenas, logo seu アクセント é diferente (pelo amor de tupã, isso NÃO É UMA REGRA, é apenas para ajudar a lembrar). Depois, lembre da pedrinha sendo arremessada ↗ e depois chegando ao chão ↘.

【たいりょう】「大量」「大漁」「大猟」

Essa postagem inaugura uma nova categoria, a de 同音異義語(どうおんいぎご), ou seja, palavras que possuem a mesma pronúncia, mas significados diferentes. Não é a mesma coisa que 同訓異字 (どうくんいじ), que são escritas diferentes pra uma mesma palavra, o que lhe dá nuances diferentes (posso até fazer uma postagem sobre diferença entre 同音異義語 e 同訓異字, mas não creio que seja tão necessário assim).

As palavras de hoje são 大量, 大漁 e 大猟, todos lidos como たいりょう. Apesar de serem palavras distintas, existe algo em comum em todas (além do 漢字 de 大): elas indicam “grande quantidade”.

A primeira delas, 大量, é “grande quantidade, em massa”, como em “produção em massa” ou “assassinato em massa”. É um termo geral para indicar grande quantidade. Cuidado para não confundir com 体量 (também lido たいりょう), que significa “peso do corpo”.

Já os termos 大漁 e 大猟 são usados apenas para pesca e caça, respectivamente. Eles se referem a uma boa quantidade de peixes obtidos em uma pesca (大漁) ou um bom resultado em quantidade na caça (大猟). Nesse ponto, os dois são bem semelhantes, mas cada um é usado em um contexto.

Curiosamente, os dois possuem os opostos 不漁 e 不猟, ambos lidos como ふりょう. Significam um mal retorno, pouca quantidade em resultados da pesca ou da caça, respectivamente.

Quer uma dica para entender visualmente a diferença entre eles? Coloque 不漁 e 不猟 no Google Imagens e tire suas conclusões (aliás, essa tática ajuda muito em outras diferenças também).